Bayard Boiteux

Notícia

Little Brazil: o desaparecimento do ‘coração brasileiro’ em Nova York

Quando se pensa em bairros de imigrantes em Nova York, é fácil que Chinatown e Little Italy venham à mente. Mas entre as décadas de 1980 e 1990, borbulhava ali também um pedaço do Brasil, concentrado em uma quadra da 46th Street — ou ‘Rua 46’, entre a Quinta e a Sexta Avenida.

O lugar ganhou o apelido — e mais tarde, o nome oficial, com uma placa instalada pela prefeitura, — de Little Brazil (Pequeno Brasil, em português).

A história da 46th Street começou como um caldeirão econômico e cultural. Entre lojas de eletrônicos, joalherias, lojas de discos, restaurantes servindo feijoada e caipirinhas, e até uma agência do Banco do Brasil localizada por perto, o entorno funcionava como uma vitrine da cultura brasileira e como um ponto de encontro para turistas e imigrantes.

Mas hoje já não é tão comum ouvir português brasileiro nas ruas e sentir o cheiro de pão de queijo ou coxinha saindo das cozinhas.

O jornal New York Times publicou uma reportagem intitulada “Crise da dívida latino-americana atinge a ‘Rua Brasileira’ de Nova York”.

O texto apontava que as dificuldades na economia brasileira — com inflação acima de 200%, recessão e a maior dívida externa do mundo — estavam sendo sentidas até na Little Brazil, onde o movimento de turistas e comerciantes brasileiros despencava.

À reportagem, Jaime Felzen, dono da loja de eletrônicos Brasil Som, contou que, entre 1981 e 1984, suas vendas caíram 90%, o número de funcionários passou de 15 para 5, e quase toda a área de estoque havia sido transformada em escritório.

O jornal relatou que, enquanto clientes da alta classe ainda visitavam a rua, a classe média, que formava a maioria da clientela, havia parado de viajar para Nova York.

“Esta é uma parte de Nova York que depende mais das decisões econômicas tomadas em Brasília do que das que vêm de Washington”, disse à época ao NYT Jota Alves, editor do jornal comunitário The Brasilians.

Abrão Glikas, dono da Bertabrasil Butik, uma loja de eletrônicos e roupas, também já lamentava: “Era uma época que me dá saudade. Só se falava português, de uma ponta da rua à outra.”

A reportagem do jornal local também destacou os detalhes que tornavam a rua tão brasileira: “Para matar a saudade, era possível ouvir discos de bossa nova nas lojas de música, comprar edições da Seleções do Reader’s Digest em português, ver as cores verde e amarela da bandeira brasileira nas vitrines e levar a família para uma tradicional feijoada de sábado à tarde.”

Luís Gomes, dono do restaurante Via Brasil, lamentou ao jornal na época: “A rua nunca mais vai voltar a ser o que foi.”

Mais de 40 anos depois, no fim de setembro de 2025, a reportagem da BBC News Brasil encontrou com Luis Gomes, que disse algo parecido enquanto preparava um coquetel no bar do Via Brasil, que comanda desde 1978.

“Ah, não tem comparação. Naquela época existiam grupos de colégios que vinham para compras, ônibus de turismo, era uma época totalmente diferente”, lembra Luis.

“Existiam muitas boutiques brasileiras, clubes… mudou muito daquela época para cá. Infelizmente, uma mudança drástica. Não creio que vá voltar.”

O restaurante Via Brasil é hoje um dos poucos sobreviventes daquela época de ouro. “Ainda mantemos uma boa clientela, mas os anos 90 eram muito mais agitados”, diz Luis, com nostalgia.

Fotos na parede e lembranças de clientes antigos mostram um espaço pulsante, referência para quem queria sentir um pedaço do Brasil fora do país.

Além do restaurante de Luis, a presença brasileira ainda perdura com um outro restaurante e poucas lojas que resistem à especulação imobiliária e à transformação acelerada da cidade.